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As Imagens e as Vozes da Despossessão: A Luta pela Terra e a Cultura Emergente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)

Língua:

Português (change language to English)

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Cultura emergente por categorias -> História: Massacres e mártires 13 recursos (Categorias culturais produzidas por & © Else R P Vieira)

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Este recurso se encontra também em:

Letras de músicas

Autor:

"Manos da Baixada de Grosso Calibre"
(um grupo de favelados em Belém, capital do estado do Pará, que integra o movimento hip hop da favela.)

Título:

Eldorado dos Carajás


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1996

Quarta-feira, dezessete de abril,
Eldorado dos Carajás, Sul do Pará, Brasil,
Lá onde só Deus sabe o que acontece,
PA 150, Curva do "S",
Por mais de um dia 1200 sem terra
Bloqueiam a rodovia, reivindicam à sua maneira
A desapropriação da fazenda Macaxeira.
40 mil hectares de um só dono
De uma terra entregue ao abandono
Grande propriedade, latifúndio improdutivo
Que só serve ao interesse especulativo
E o fazendeiro que não faz concessão
Está disposto a abrir mão
A 800 famílias que só sonham com um pedaço de chão.

E tentam a todo custo se manter de cabeça erguida
Mesmo famintos e lutando por comida
Gente simples, pobre sem muito recurso,
Cansados de esperar reforma agrária sair do discurso
Tudo que eles querem é a terra pra poder fazer uso
INCRA não dá crédito, não assenta, não cumpre prazo,
governo age com total descaso,
Insensibilidade diante do drama
E um profundo desprezo pela vida humana.
Planejam o que ninguém imagina
Enquanto a hora da matança se aproxima

Refrão

Sem justiça não existe paz
Não existe paz
Eldorado dos Carajás
Sem justiça não existe paz
Não existe paz
Eldorado dos Carajás.

De Paraupebas, de Marabá
Vieram dois destacamentos da Polícia Militar,
Coronel Mário Pantoja,
Com a sua corja,
Duzentos homens armados de forma ameaçadora,
Com revólver, escopeta, fuzil, metralhadora.
Chegaram na surdina, com sutileza
Prontos pra partir pra cima de gente indefesa
Sedentos de sangue e ao que tudo indica
Vão usar uma violência que não se justifica
São ossos do ofício, matar faz parte do serviço
A tensão aumenta, todo mundo se sente apreensivo,
Cada segundo conta, cada minuto é decisivo.
Mas der no que der
Os sem-terra não vão arredar o pé
Estão dispostos a resistir enquanto puder
Enquanto o Sr. Almir Gabriel
Só tá a fim de defender o latifúndio, o gado e o capim
A sua ordem tem tom de ameaça
Custe o que custar, de hoje não passa.

Refrão

Sem justiça não existe paz
Não existe paz
Eldorado dos Carajás
Sem justiça não existe paz
Não existe paz
Eldorado dos Carajás.

E do ímpeto a polícia agiu do seu jeito,
Foi traiçoeira, sorrateira, covarde,
Às quatro e meia da tarde,
Tempo esgotado
cerco se fecha,
Os pau-mandados
Não deixaram brecha.
Reagir, bem que os sem-terra tentaram
Mas aí, é claro,
Este foi o pretexto usado
Para o primeiro disparo
Daí pra frente o que se viu
Foram execuções a sangue frio
Cenas de uma guerra civil.
A crueldade sem limite
Com todo seu requinte,
Porque contra força
Não existe argumentos
Ainda mais quando se trata
De um esquadrão de fuzilamento.

Foram quatorze minutos contados de fogo cerrado
Chumbo grosso, osso,
No meio daquele alvoroço se ouvia choro e grito
Das pessoas que tentavam fugir do conflito
Foi um corre-corre, um Deus-nos-acuda,
Pessoas desesperadas imploravam ajuda.
E o pior é que existe indícios
Que tudo foi premeditado
Desde o início
Todas as balas tinham endereço certo
E os tiros, foram todos dados de muito perto
Parecia coisa de grupo de extermínio seu menino
Não importava quem estivesse no caminho.

Homens, mulheres, crianças, dava tudo no mesmo
Porque os homens atiravam impunemente a esmo.
À torta e à direita, sem dar a mínima,
Sem escolher a vítima,
Lourival não conseguiu correr,
Ficou parado, confuso, levou um tiro de fuzil no peito,
Caiu morto de bruços.
Robson foi arrastado pelo cabelo
E não foi culpado.
Mesmo depois de já ter sido dominado
Oziel tinha sido jurado de morte pelos coronéis
Foi algemado, espancado com socos e pontapés,
Depois recebeu três tiros fatais
E teve o mesmo triste fim que os trabalhadores rurais.
Naquela batalha campal cujo resultado final
Foram dezenove mortos e sessenta e um feridos no total,
Todos vítimas da ação policial que foi brutal, violenta e sanguinária.
Promoveu execuções sumárias, uma tragédia parecida
Com a da Candelária, Carandiru, Vigário Geral, Corumbiara.

E Eldorado dos Carajás é um caso a mais
Que revela realmente do que ela é capaz
Julgou a opinião pública nacional
Causou repercussão internacional
Mas depois de um certo tempo
Caiu no esquecimento
Deve ser por isso que ninguém fica surpreso
Que até hoje nenhum dos acusados tenha sido preso.

Refrão

Sem justiça não existe paz
Não existe paz
Eldorado dos Carajás
Sem justiça não existe paz
Não existe paz
Eldorado dos Carajás

Esta música é do CD Um canto pela paz

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Letras de músicas: Editado por Else R. P. Vieira

Data:

novembro de 2002

Recurso ID:

ELDORADO504

Glossário

Compilado por Else R P Vieira. Tradução © Thomas Burns.

Candelária
"Importante igreja católica da cidade do Rio de Janeiro. Em julho de 1993, em frente à igreja, ocorreu uma chacina, quando oito meninos de rua foram assassinados. Esse fato representa, até hoje, a indignação dos movimentos populares. Por essa razão Candelária transformou-se na representação da luta contra a violência na cidade e no campo" (Fernandes, Bernardo Mançano. Pequeno Vocabulário da Luta pela Terra. Inédito). 

Carandiru, Chacina de
"Em 2 de outubro de 1992, ocorreu em São Paulo ... o assassinato brutal de 111 presos, do Pavilhão 9, no Presídio do Carandiru ... Os criminosos, responsáveis pela chacina, receberam como punição o rebaixamento ou demissão dos cargos. (Calendário Histórico dos Trabalhadores. São Paulo: MST, Setor de Educação. 3a. edição, 1999, p.70). 

Corumbiara, Massacre de
"Na madrugada do dia 09 de agosto de 1995, um contingente de 300 policiais do Comando de Operações Especiais (COE), de Rondônia, investiu contra as 500 famílias de sem-terra que tinham ocupado a Fazenda Santa Elina, em Corumbiara. Tal chacina, que chocou todo o país, teve um saldo final de nove sem-terra mortos inclusive uma menina de sete anos e dois policiais, além de dezenove feridos e muitos desaparecidos" (Calendário Histórico dos Trabalhadores. São Paulo: MST, Setor de Educação. 3a. edição, 1999, p. 59-60). 

Eldorado de Carajás, Massacre de
"Carajás, região localizada no sudeste do Pará. Recebeu essa designação em função da serra dos Carajás, onde antigamente viviam os povos indígenas do mesmo nome. 0 centro da região é a cidade de Marabá. Foi no município de Paraupebas que ocorreu o massacre de 19 sem-terra, em 17 de abril de 1996, durante uma manifestação na rodovia local, praticado pela Polícia Militar e por fazendeiros. Até hoje nenhum dos 156 policias e oficiais envolvidos no massacre sofreu qualquer punição ou julgamento. Em março de 1998, oito desses mesmos policiais envolveram-se no assassinato de mais dois líderes do MST na região" (Fernandes, Bernardo Mançano e Stedile, João Pedro. Brava gente: a trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1999, nota 13, p. 144). 

INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
"Foi criado em 1970, no governo militar do general Emílio Garrastazu Médici, para ser o órgão executor da reforma agrária. Foi extinto em 1987, no primeiro governo da Nova República - José Sarney, e recriado em 1989, pelo mesmo governo. Hoje está vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA. Desde sua fundação tem executado projetos de colonização e de assentamentos rurais" (Fernandes, Bernardo Mançano. Pequeno Vocabulário da Luta pela Terra. Inédito). 

Macaxeira
"Complexo de 50 mil hectares no município de Paraupebas, sudoeste do Pará (PA), pertencente a diversos fazendeiros. Conhecido como Fazenda Macaxeira, nesse complexo estão assentadas as famílias vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás, em 17 de abril de 1996, quando 19 sem-terra foram assassinados" (Fernandes, Bernardo Mançano e Stedile, João Pedro. Brava gente: a trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1999, nota 10, p. 143). V. ELDORADO DE CARAJÁS. 

		À Universidade da página bem-vinda de Nottingham

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Coordenadora do Projeto e Organizadora do Arquivo: Else R P Vieira
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Arquivo criado em janeiro de 2003
Última atualização: 07 / 05 / 2016

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